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Meditação Transcendental ajuda Angélica a superar Síndrome do pânico

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Ela foi buscar na meditação a saída para o turbilhão

Ao realinhar sua respiração, Angélica tomou contato com questões íntimas e incômodas que haviam sido deixadas de lado por décadas de encenação de uma vida perfeita para as câmeras. Agora, ela quer ir mais fundo – para dentro.

Talvez tudo tenha começado a mudar quando Angélica ouviu o marido dizer, com uma estranha calma na voz, quatro palavras que ela teria preferido nunca escutar: “O avião vai cair”. Nessa hora, vendo a seu lado as três crianças que trouxe ao mundo e percebendo que morreriam todos (porque, afinal, quem sobrevive a um acidente de avião?), um enorme desespero bateu. Angélica não queria morrer, não naquela hora, não daquele jeito. Diante do inevitável, ela gritou. E depois gritou ainda mais alto. E então, enquanto o solo se aproximava cada vez mais rapidamente, o impossível aconteceu: ela aceitou a morte e foi inundada por uma paz que jamais havia sentido. De repente tudo a sua volta era silêncio, um silêncio brutal, até porque quando os dois motores de um avião param de funcionar o que se escuta é o mais profundo silêncio. Estranhamente Angélica parou de gritar, os filhos pararam de chorar, as babás pararam de rezar. E o avião caiu. Foram muitas batidas no solo até que ele parasse totalmente. Assim que a aeronave parou de quicar, a gritaria voltou. Estavam todos vivos, mas para sempre alterados.

“ela aceitou a morte e foi inundada por uma paz que jamais havia sentido.”

Era dia 24 de maio de 2015. Angélica, Luciano Huck, os três filhos e as duas babás estavam saindo de uma fazenda no Pantanal a caminho do aeroporto de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, de onde pegariam o avião da família para voltar ao Rio, onde moram. Os dias que se seguiram ao acidente foram de euforia, mas em seguida todos começaram a exibir as cicatrizes: algumas aparentes, outras nem tanto. As de Angélica demoraram a aparecer, e quando apareceram a sufocaram: por duas vezes, andando pela rua, ela achou que não era mais capaz de respirar e passou a ser sucumbida por crises de pânico que a aterrorizaram. Alguma coisa tinha saído do lugar e ela não conseguia saber o que era.

Não é a primeira vez que uma situação trágica transforma a sua vida. Quando você tinha 5 anos passou por uma que trouxe você até aqui. Agora, você acha que essa segunda pode levar a um lugar de mais significado?

Angélica. A gente não sabe explicar, né? E a gente quer explicar tudo, só que muita coisa não tem explicação.

O que aconteceu depois que o avião caiu? A gente caiu num lugar que não tinha comunicação, mas um carro estava passando lá longe e o motorista viu um avião caindo, e ele entrou no meio daquele descampado que era longe da estrada. Eu estava com muita dor, distendi um músculo da perna, mas na hora não sabia o que era e parecia uma dor grave. O Luciano com muita dor nas costas e as crianças com nada, mas a babá tinha um machucado na boca. Na hora que parou saiu todo mundo correndo do avião, mas eu voltei para pegar a bolsa e as coisas da Eva, um absurdo porque o avião podia explodir, mas foi quando eu voltei e olhei o avião cheio de sangue, de terra, uma imagem meio de guerra, que caiu a ficha do que realmente tinha acontecido. A gente foi para um hospital em Campo Grande. Me transferiram numa maca de avião para o Einstein, em São Paulo, e o Luciano foi numa UTI móvel.

Quando você entendeu que alguma coisa tinha sido chacoalhada em você para sempre? Muito tempo depois. Na verdade, primeiro veio a euforia de estarmos vivos, muitas mensagens de amor, muita coisa boa das pessoas. Mas o Luciano ficou três meses fazendo fisioterapia todos os dias para evitar uma cirurgia na coluna, foram meses tensos, ele e eu preocupados com as crianças, com a reação delas, indo a psicólogos. Então teve um acomodar. Foi uma época em que eu estava mais sensível, chorando por bobagem, mas para eu entender que tinha me atingido mais profundamente demorou uns meses.

E atingiu como? Comecei a ter sintomas de medo. Teve uma viagem que a gente fez para Nova York e eu estava aparentemente bem; sempre gostei muito de viajar para fora do Brasil porque a gente vai ao mercado, a gente almoça e janta junto, é uma vidinha muito normal. Deixei o Luciano com as crianças e fui fazer supermercado porque a gente tinha alugado um apartamentozinho com cozinha. Fui andando sozinha, sem segurança, sem motorista, sem ninguém. Quando cheguei perto do Central Park comecei a sentir uma coisa estranha, uma batedeira esquisita no peito, uma coisa incômoda, paniquei. Não conseguia andar nem pra frente, nem pra trás, nem falar, nem pegar o telefone, nem nada. Uma hora consegui ligar para o Luciano e ele foi me pegar. Voltei para o apartamento e comecei a sentir uma coisa muito estranha. A partir desse dia eu não conseguia ir sozinha para lugar nenhum, tinha sempre que ter alguém.

Você tinha medo de ter medo? Sim, e a pior coisa é você ter medo de ter medo, é o pior medo.

Era a primeira vez que você sentia essas coisas? Sempre fui uma pessoa com medo das coisas, mas depois [do acidente] fiquei um pouco mais sensível. Dizem que depois de um episódio muito traumático você demora um tempo e aí vêm alguns sintomas psicológicos. Falei com o médico e ele: “Vamos tomar um remédio, vamos não sei o quê…”. Não sou muito fã desse negócio de remédio, nunca tomei, então falei: “Não quero”.

Que tipo de ajuda você buscou? Voltei a fazer minha análise. Comecei a fazer muito pequena, sempre fui uma pessoa muito pé no chão, depois dos filhos fiquei mais ainda, então não fazia sentido pra mim aquela sensação. Pouco depois do episódio de Nova York a gente viajou para esquiar e eu estava num museu com as crianças e tive de novo uma crise que não me deixava respirar. Eu pensei: “Tá errado isso”. Não consegui esquiar, fiquei dez dias dentro da casa. Aí comecei a receber uns sinais: um amigo me deu um DVD de meditação – se chama Connection, é sobre meditação transcendental [a técnica criada pelo guru indiano Maharishi Mahesh em 1958], outro falou que fazia meditação… Eu só fui acreditar na tal da meditação quando vi em um documentário alguns médicos falando que resolvia mesmo. Depois fui fazer um curso de três dias na Arte de Viver, e adorei. Comecei a fazer a meditação, mas ela não me pegou, fui largando de algum jeito. E alguém, assim do nada, porque nem sabia que eu fazia, falou: “Você conhece o Kléber [Tani], professor de meditação no Rio há muitos anos?”. Pesquisei na internet a linha dele, criada pelo Maharishi, e aquilo me pegou de vez.

Então a meditação curou o pânico? O pânico nada mais é do que você perder o controle da respiração, e a meditação encaixou novamente a minha respiração. Eu estava numa ansiedade, numa coisa esquisita, e por isso comecei a respirar errado. Mas percebi o quanto tudo isso nascia na minha cabeça, e o quanto eu consigo dominar a minha cabeça, e não deixar ela me dominar. Nós somos uma coisa só, não existe isso de a cabeça estar maluca e o corpo estar são.

Faz quanto tempo que você engrenou na prática? Uns seis meses, a meditação. A ioga faz dois meses, ashtanga e a hatha. Medito no meu quarto, medito nesta sala onde estamos agora e na academia. Outro dia meditei no meu quarto e tinha uma luz linda entrando, então fiz uma foto e botei no Instagram. Quase não teve likes, ao contrário de quando coloco foto malhando. Eu não sei por quê. As pessoas não falam muito sobre meditação. Queria entender que medo é esse, o que é que é. Medo do desconhecido? É medo de entender a cabeça? É medo de afundar nessa história?

Se você falar “eu faço meditação” o interesse é pequeno. Já se falar “coloquei silicone”… É superlouco. E meditação muda a vida da pessoa…

E muda a realidade ao nosso redor. Muda tudo. Muda a família. Quando comecei a fazer o curso, o Kléber falou: “Você vai ver que muda a sua casa porque vai mudar você, e você é a sua casa”. E mudou. Mudou o meu humor, óbvio, porque você fica mais calma em todos os sentidos, com as crianças e tals. Não fico falando para eles meditarem, mas eles sabem o horário que eu medito, e fazem silêncio. Outro dia eu cheguei em casa e a Eva estava assim [faz um lótus]. Perguntei: o que você está fazendo? E ela: “Meditando. Ommmm”. Os meninos não meditam ainda, mas sei que estou plantando uma sementinha na cabeça deles. O Luciano fez o curso há um mês. Meditar junto é outra história, outra energia. A gente consegue meditar junto de vez em quando e é um barato, ainda mais quando você tem muita intimidade com a pessoa, parece que a meditação é mais profunda, a gente sem pensar abre o olho junto, a gente sente as coisas juntos, tem muita ligação.

Meditar junto é se encontrar no silêncio, e a gente aqui fora se encontra no barulho. Exatamente, meditando a gente se encontra na essência. Acho até que mudou a minha relação com ele. A gente é só energia, né? E quando a gente gosta de alguma coisa a gente fica apaixonada por aquilo e vira o chato que só fala disso e quer doutrinar todo mundo, então comecei a me policiar porque senão as pessoas não levam o assunto a sério. Mas chegar a esse ponto em que a mente se cala, em que você transcende por instantes que seja, é muito bom.

Outro dia alguém me disse que se tivesse um amigo que falasse para ele as coisas que a mente dele fala, ele romperia para sempre. Isso! A mente é cruel. O Kléber me disse: “Quando você começar a meditar regularmente, durante o dia de repente vai vir aquela sensação da meditação do nada, e você vai ficar meio em êxtase”. E aí começou a acontecer! É muito louco, é químico mesmo, você sente o mesmo barato.

É como se você finalmente se sentisse conectado a tudo… Esta entrevista vai ficar tipo uma seita em nome da meditação. É! Duas insuportáveis falando o tempo todo de meditação, e o leitor: “A gente não quer meditar! A gente quer ir pra balada, a gente quer tomar MD, a gente quer ficar louco” [risos]. Mas sabe o que acontece? O mundo de hoje é muito difícil porque a internet que a gente ama é justamente o oposto da meditação, ela te afasta muito de você se você não souber usar com moderação. A gente vai botando informação para dentro e se você não limpar a cabeça uma hora vai explodir.

Você é uma mulher linda, tem um casamento que é idealizado, é famosa, milionária, mora nesta casa que mais parece um resort, e o drama da experiência humana pegou você mesmo assim. Mas é assim porque a gente é humano. Somos todos essencialmente iguais. A coisa mais absurda que existe é a busca do poder e é o que todo mundo quer hoje, no celular, na internet, em todo lugar. Você faz uma selfie, você trabalha a foto inteira, coloca filtro e posta, e alguém vai te ver como aquilo que você resolveu ser naquele momento. Na internet é isso, você pode ser amigo de todo mundo, você pode ser linda, você pode tudo de uma forma totalmente rasa, superficial e irreal. Lidar com essa sede de poder, com o ego, é um negócio muito difícil; é um trabalho pra mim, pra você, pra qualquer um. Quem não gosta de ser elogiada? Quem não gosta de se ver linda numa foto? É humano, é normal, mas você tem que ter a consciência de que isso é só isso e de que não é real. A real é outra coisa.

Qual é a real? A real pra mim é minha família, são os bichos aqui em casa, meus amigos, é deitar a cabeça no travesseiro feliz porque consegui meditar, buscar meus filhos na escola, trabalhei um pouquinho, falei com um amigo ou outro, isso é bom pra mim. Pode ser aqui no que você chamou de resort ou pode ser numa viagem, num hotel, num quartinho, em qualquer canto. A vida vai levando a gente para uma coisa grande até que você percebe que é só uma coisa grande, e que o que te faz feliz não é isso. É o que estou vivendo hoje. Tem gente que busca a bolsa Chanel, ou casar com homem rico para ter bolsa Chanel. Isso, para ela, parece a felicidade. Mas a gente sabe que é mentira.

O que dá prazer pra você hoje? Sinto um enorme prazer em conseguir controlar a minha mente, é um negócio inacreditável.

Seria exagero dizer que você iniciou essa viagem, a maior da sua vida, e ela é para dentro? Encontrei uma coisa perfeita que me leva para dentro, para perto de Deus, do Deus em mim, então é uma viagem mesmo. Conseguir transcender essa nossa realidade aqui, ah, não tem nada melhor.

 

Foto: Jorge Bispo

Fonte: Revista Tpm

Para ler a entrevista no íntegra acesse:
http://revistatrip.uol.com.br/trip/entrevista-com-angelica-nas-paginas-negras-acidente-de-aviao-traumas-meditacao-familia