Como aprender

The Guardian – Meditação Transcendental: funciona?

 

Primeiro, tentou aplicativos de sono, depois tanque de flutuação, depois mindfulness, mas nada impedia a tagarelice da mente, cada vez mais exausta, de Stuart Heritage. Será que a Meditação Transcendental, atualmente reavivada, faz o truque?

Stuart Heritage
Sáb 1 mar 2014

Eu não sei você, mas eu estou exausto. Eu acordo exausto e passo todas as manhãs limpando a névoa do meu crânio. Eu almoço exausto, depois xingo todos os objetos inanimados na minha frente. Eu tento não dormir na minha mesa, em seguida cambaleio para o meu sofá, desmaio em cima das minhas roupas e rastejo para a cama para mais uma noite de sono irritantemente interrompido. Essa é minha vida. E eu nem faço muita coisa.

Eu não reclamo disso em voz alta, é claro, porque eu não quero entrar em uma competição de exaustão com ninguém. Não quero dizer a alguém que tive quatro horas de sono, porque eles vão responder que tiveram só três, além do colchão ter pegado fogo à meia-noite. Pior, e se eles forem pais de primeira viagem? “Como você está?” eles perguntarão. “Cansado”, respondo. “Ah é?” eles vão dizer. “Bom, eu não durmo desde outubro, porque eu tenho limpado diarreia de bebê na porta da minha geladeira com uma espátula.” Você não pode ganhar de pais recentes.

Porém, estou cansado e me culpo. Como a maioria das pessoas que conheço, a minha vida caiu na areia movediça da modernidade, cheia devido aos turbilhões de televisões e telefones e sirenes e e-mails e Twitter e luzes e ruídos e bips. Citações de Simpsons, efeitos sonoros de videogames e músicas de parques de diversão fluem loucamente pela superfície do meu cérebro. Desligar exige esforço deliberado e, mesmo assim, nem sempre funciona. Eu estou quase dormindo e, de repente, a minha mente grita: “Você se lembrou de colocar o despertador?” ou, “Você não respondeu àquela mulher ontem, seu idiota” ou, “Lembra da música do Nyan Cat? Não? OK, eu vou repeti-la várias vezes em volume máximo até as 6 da manhã. Espero que seja legal.”

Para me desligar do mundo, recorri à Meditação Transcendental. Esta não foi a minha primeira escolha. Primeiro, eu tentei o aplicativo de sono Pzizz, pelo qual você é bombardeado por efeitos sonoros binaurais, até você apagar. Isso não funcionou, porque eu estava convencido de que ia subliminarmente me mandar devorar os meus pais enquanto dormia. Então, eu tentei tanques de flutuação, onde você fica deitado dentro de uma pequena cápsula cheia de água salgada por uma hora. Isso também não funcionou, pois me debater dentro de um caixão de plástico escuro cheio de lágrimas quentes é exatamente o oposto de relaxamento.

Depois disso, tentei mindfulness. Provavelmente, você já ouviu falar de mindfulness, porque as pessoas não param de falar disso. No passado, budistas e monges tinham para si o mindfulness como uma maneira de se concentrar em seus processos de pensamento durante a meditação. Agora que encontramos uma maneira de remover o aspecto espiritual, está por toda parte. Há livros. Existem seminários. Terapeutas e conselheiros prescrevem-no. Existem aplicativos, como o incrivelmente popular Headspace, pelo qual você é guiado em 10 minutos de exercícios de respiração e de verificações de autodiagnóstico, de cima para baixo, em várias partes do seu corpo, até se tornar o modelo perfeito de autorrealização radiante.

O mindfulness ajuda milhares de pessoas todos os dias: pessoas com depressão, distúrbios alimentares e problemas de dependência. Mas não é para mim. Mindfulness exige auto-observação, a qual é exaustiva. Você precisa sentar e prestar atenção em tudo: como você está respirando, qual é a sua postura, o que você está pensando, por que você está pensando sobre isso, o que fazer porque você está pensando sobre o que você está pensando. Isso continua e continua. Eu conheço pessoas que foram colocadas em cursos de mindfulness por médicos, apenas para fugir gritando com as pilhas de lição de casa que devem realizar.

Além disso, a atenção me deixa neurótico. Um exercício que fiz envolveu escrever todos os pensamentos que passaram pela minha mente ao longo de meia hora. Isso me ensinou que eu estava preocupado com o trabalho. Eu não sabia que estava preocupado com o trabalho, mas o exercício me levou a uma espiral de morte em pânico. Em retrospecto, eu deveria ter apenas empurrado todos os meus sentimentos para baixo na boca do meu estômago e os ignorado, até que eles se transformassem em doenças cardíacas e me matassem em uma idade tragicamente jovem. Este é o caminho herdado. Então, eu busquei a Meditação Transcendental.

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O ressurgimento moderno da MT é frequentemente atribuído ao trabalho do diretor de cinema David Lynch, cuja fundação ensina técnicas de MT a vários grupos em risco. Foto: Linda Nylind, para o Guardião.

 

Por meio do site tm.org, encontrei um instrutor, Ged Valente, um simpático professor de Glasgow que se voltou para a MT décadas atrás, que me explicou como é fácil aprender a técnica. Você não pode aprender MT por meio de um livro, de um aplicativo ou de um artigo como esse, porque a instrução precisa ser personalizada de acordo com as suas necessidades individuais. Então, em vez disso, um instrutor vai à sua casa em quatro dias consecutivos. Depois disso, você está sozinho. Você não precisa pagar mais dinheiro. Você não precisa participar de mais aulas ou conhecer novos meditantes. Você nem precisa ter interesse por religião ou espiritualidade. O que é bom, porque não tenho.

Ged me falou sobre a diferença entre MT e mindfulness. Enquanto mindfulness pratica observação aberta, ele disse, na MT é tudo sobre deixar ir. Você se senta em silêncio por 20 minutos, e sua mente naturalmente começa a se acalmar. Você repete um mantra – um som sem significado que você não pode contar a ninguém – e, eventualmente, se estiver fazendo certo, você alcança um ponto de silêncio expansivo, e seu corpo se inunda com uma sensação quente e agradável.

Esse sentimento tem muitos nomes, mas vou me referir a isso como transcendência. Ged gosta de chamar de “consciência pura”, o que é um místico demais para mim. […]

O treinamento consiste em um bate-papo introdutório, uma cerimônia de iniciação e três sessões de acompanhamento. Saber que havia uma cerimônia era uma preocupação, mas não grande. Como Ged disse: “Se você gosta cerimônias, é divertido. Se você não gosta, ela é curta.” Demora cinco minutos e, quando termina, você tem seu mantra.

 

“Eu me senti grogue depois da minha primeira vez. O meu cérebro não sabia muito bem o que fazer sem o ruído barulhento de efeitos sonoros desconexos.”

 

Depois disso, você pode continuar meditando. A MT, como eu logo descobri, foi projetada para pessoas tão preguiçosas quanto eu. Você se senta onde quiser, com suas roupas normais, fecha os olhos e repete o seu mantra em sua mente. É isso. Conforme o tempo passa, você para de se sentir consciente de si mesmo e a sua respiração fica mais lenta. O seu controle sobre o mantra se solta e ele fica mais abstrato. A sua mente fica mais quieta e menos perturbada pelos pensamentos. É um sentimento bom.

Eu me senti grogue depois da minha primeira vez. O meu cérebro não sabia muito bem o que fazer sem o habitual ruído barulhento de efeitos sonoros desconexos. E, cinco minutos depois, eu xinguei o meu sofá. Não me lembro por quê. A paz interior estava claramente distante.

Depois de algumas tentativas, comecei a melhorar. Eventualmente, ficou mais fácil calar o meu cérebro estúpido. Quando você finalmente alcança esse estágio, tudo simplesmente se derrete. Parece como o instante antes de você adormecer, mas prolongado. Eu não posso dizer com certeza que isso foi transcendência, mas definitivamente me acalmou. Para ser honesto, eu posso ter apenas adormecido – mas até isso está ok. Você pode dormir na MT. É um sinal de boa prática.

Os benefícios completos da MT não aparecem necessariamente até que você esteja praticando regularmente por semanas ou meses – Maverick me disse que levou um ano – então é muito cedo pra dizer se houve algum resultado concreto. Eu não sei o que aconteceu com a minha pressão sanguínea, ou se eu estou menos propenso a sofrer um ataque cardíaco antes dos 35 anos. Eu certamente ainda não experimentei o brilho cintilante, ilimitado e todo abrangente que chega com a transcendência total, mas eu decidi que vou continuar praticando a técnica, mesmo que a transcendência nunca venha.

Por quê? Porque é uma coisa quase embaraçosamente luxuosa de se fazer. Além de qualquer outra coisa, significa que, por 20 minutos duas vezes por dia, eu me isolo. Não há TV, notícias, telefonemas, e-mails ou idiotas brigando sobre definições específicas de feminismo no Twitter. Ninguém está tentando me vender nada. Há apenas eu, sozinho, sentado calmamente em uma boa cadeira com os olhos fechados. A MT é o mais próximo que eu posso chegar de fugir para viver em uma caverna, o que é algo que eu gostaria de fazer, mas provavelmente não vou, porque eu não acho que o Domino’s faça entregas em cavernas.

Mais do que qualquer outra coisa, a MT funciona para mim. Pode não funcionar pra você, mas acho profundamente relaxante. Isso me dá uma chance pra colocar ordem nos meus pensamentos. Eu descobri que consigo me concentrar mais facilmente ao longo do dia. Mais importante: ainda que a meditação seja algum efeito placebo elaborado, estou muito menos cansado do que há um mês. O meu sono é profundo e ininterrupto (peguem essa, pais de bebês).

E o melhor de tudo, eu ainda sou eu. Eu não me tornei religioso de repente. Eu ainda não sei o que é uma consciência coletiva. Eu ainda xingo objetos inanimados. Relaxamento total, ao mesmo tempo que chamo a impressora de idiota. Esso é o sonho, não é?

 

Disponível em: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2014/mar/01/transcendental-meditation-does-it-work